Hipertrofia visual (pt.2) – arquitectura: sedução ou persuação?
[Um excerto da dissertação de mestrado]
Nos actuais concursos de arquitectura, a importância da imagem revela-se nas propostas apresentadas e representadas em painéis com imagens de tal forma espectaculares, que, em diversas situações, permitem a organização de exposições. Durante o processo de concepção, o arquitecto tende a sobrevalorizar a imagem, pois entende que esta é o único veículo de comunicação entre o concorrente e o júri do concurso. Neil Leach expressa esta mesma visão: “O mundo ameaça assim ser cada vez mais compreendido em termos de imagens estéticas vazias de conteúdo.”1.
Identifica-se uma obsessão pela imagem. O arquitecto contemporâneo utiliza ferramentas de simulação tridimensional, mas expõe o projecto, somente, através de composições estáticas e a duas dimensões. Quando os pressupostos de sobrevalorização da imagem se transpõem para a obra em si, destaca-se um problema (ou uma dicotomia): «o homem estático vê a arquitectura» ou «o homem em movimento sente a arquitectura»? Sabendo que a maioria dos prazeres são vividos com os olhos fechados, como se sente uma arquitectura que foi concebida só para ser vista?
Peter Zumthor muda o sujeito da questão anterior e afirma: “Uma boa arquitectura deve hospedar o homem, deixá-lo presenciar e habitar, e não tentar persuadir.”2.
No entanto, Juhani Pallasmaa demonstra alguns dos efeitos colaterais da sobrevalorização da imagem: “Creo que muchos aspectos de la patología de la arquitectura corriente actual pueden entenderse mediante un análisis de la epistemología de los sentidos y una crítica a la tendencia ocularcentrista de nuestra sociedad en general, y de la arquitectura en particular. La inhumanidad de la arquitectura y la ciudad contemporáneas puede entenderse como consecuencia de una negligencia del cuerpo y de la mente, así como un desequilibrio de nuestro sistema sensorial. Por ejemplo, las crecientes experiencias de alienación, distanciamento y soledad en el mundo tecnológico actual pueden estar relacionadas con cierta patología de los sentidos. […] El dominio del ojo y la eliminación del resto de sentidos tiende a empujarnos hacia el distanciamiento, el aislamiento y la exterioridad. Sin duda, el arte del ojo ha producido edificios imponentes y dignos de reflexión, pero no ha facilitado el arraigo humano en el mundo.”3
1 – LEACH, Neil – A Anestética da Arquitectura. 1ª ed. Lisboa: Edições Antígona, 2005. p. 22
2 – ZUMTHOR, Peter – Pensar a arquitectura. 1ª ed. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 2005. p. 28
3 – PALLASMAA, Juhani – Los ojos de la piel. 1ª ed. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 2006. pp. 18, 19

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