Homem versus Natureza (?)

•Abril 2, 2008 • 2 Comentários

A expressão “o homem e a natureza” é um pleonasmo, se a Natureza for entendida de forma integral. A Natureza não rejeitou os animais racionais. Estes, durante a sua evolução, tendem a distanciar-se dela, criando naturezas artificiais ou anti-naturezas (cidades). Como a arquitectura é uma expressão artística, independentemente da escala (pormenor, edifício, cidade, metrópole, país…) a arquitectura deve ser entendida como parte integrante da Natureza e não como a sua antítese.

Assim, a criação das naturezas artificiais, que, perante esta abordagem, visa o distanciamento à Natureza, apresenta um paradigma oposto. Como o Homem faz parte da Natureza, qualquer manifestação artística, inter-relacional, emocional, intuicional, faz parte da Natureza. Não abordando o tema através da filosofia ocidental (arte; processo criativo; estética) nem da psicologia (comportamentos; relações; emoções), o despertar para uma visão integral e integrante, induz a uma leitura mais sensorial da relação entre o Homem e a Arquitectura.

Tal visão encontra-se defendida na filosofia oriental denominada de Sámkhya [termo sânscrito]. Esta é classificada como a mais antiga filosofia teórico-especulativa. Os vestígios encontram-se associados à civilização Harappiana, localizada no Vale do Indo (3.000 a.C.). O livro que mais apresenta tal conclusão é o Atharva Vêda [título original em sânscrito] que descreve o quotidiano desta civilização. A subdivisão mais antiga, o Niríwshwarasámkhya [termo sânscrito], defende que tudo o que acontece tem como origens causas naturais, mesmo que estas não sejam inteligíveis.

Faça-se Sentido!

•Março 25, 2008 • 6 Comentários

Entendendo o Blog como ferramenta de trabalho para o mestrado que me encontro a desenvolver, deixo este post para receber os vossos comentários.

O tema em investigação é: Sentidos Urbanos. A imagem (visão) tem vindo a ganhar um grande protagonismo no processo criativo e construtivo da cidade. Assim, pretendo explorar os outros quatro sentidos. Quem nunca se sentiu atraído pelo som de uma queda de água (ou mesmo fonte) que não se encontrava abrangido pelo nosso campo visual?

Aguardo comentários, referências bibliográficas, experiências pessoais… Tudo o que sentirem útil esta investigação, que pretende aproximar a Arquitectura do Homem.

Para isso basta clicar em comentário ou, se preferirem, enviem-me por mail sentidos.urbanos[arroba]gmail.com.

Obrigado!

Filme de domingo

•Setembro 16, 2007 • Sem Comentários

Hoje vi pela primeira vez um filme de Aurélie du Boys. Um filme peculiar, pois a faixa áudio foi a primeira a ficar pronta, ou melhor, a primeira a ser editada. O filme conta ainda com uma edição em CD da banda sonora integral do filme, durante 90 minutos.

Não se trata de um manifesto, mas sim de um trabalho de Yann Tiersen. No seu último trabalho “On Tour” que representa a digressão de “Les Retrouvailles”, o compositor e multi-instrumentista edita uma edição especial (CD + DVD) onde o concerto é transformado em filme de autor. Imagens de vários concertos, backstage, devaneios, excertos de outras películas compõem o filme “Yann Tiersen On Tour”.

Não é novidade, mas já que estive de cama durante o fim-de-semana, decidi ver este DVD que adquiri há mais de 6 meses (no concerto na Casa das Artes de Famalicão).

Partilho então dois excertos do DVD de um dos meus compositores preferidos:

Yann Tiersen - Teaser DVD “On Tour”

Yann Tiersen - Le Banquet

what’s that noise?

•Agosto 31, 2007 • Sem Comentários

O “Porto-comercial” amanheceu com uma nova banda sonora. Por volta das 10 da manhã, num dia normal, intensificam-se os barulhos dos motores dos carros, das cargas e descargas, das reacções às segundas filas de estacionamento, …

Hoje, esperando a normalidade e com todos os sentidos apurados (porque estava a terminar de ler o “Ensaio sobre a cegueira” de José Saramago), senti uma melodia que se realçava pela diferença e se sobrepunha às outras pela força.

Conjuntos de aviões em acrobacias aéreas anunciam o filme de amanhã… estamos a ver/ouvir/sentir o trailer! E em directo!

Partilho a imagem (não o som) captada da varanda de casa.

Red Bull Air Race

Meditar

•Junho 12, 2007 • 1 Comentário

Muitos livros, palestras, filmes e filosofias abordam este tema. Desta vez partilho as palavras de Peter Zumthor durante uma palestra realizada em 1998, sobre o tema “Venustas” e uma passagem do filme Dreams (Akira Kurosawa), quando uma personagem entra dentro de um quadro de Van Gogh.

“Um quadro de Rothko, campos de cor vibrantes, abstracção pura. A percepção gira somente em torno do ver, é para mim puramente visual, diz ela. Outras sensações como o cheiro ou o ruído, o táctil ou o tacto não desempenham nenhum papel. Tu entras no quadro que estás a ver. O processo tem a ver com concentração e meditação. E como uma meditação, não de consciência oca, mas sim plenamente consciente. É a concentração no quadro que te torna livre, diz ela. Atinges um outro nível de percepção.”

Zumthor, Peter; Pensar a arquitectura; tradução de Astrid Grabow; Editorial Gustavo Gili; 2005; pp.57 e 58

Akira Kurosawa; Dreams; 1990

Conversa com uma amiga

•Junho 12, 2007 • Sem Comentários

Depois de uma conversa com uma doce amiga, encontrei este parágrafo num livro de Peter Zumthor que ilustra o tema da conversa. Dedico à minha doce amiga estas palavras.

“Provavelmente, a impressão surgiu primeiro, depois sobreveio a reflexão. E sei também que certas coisas apenas se tornam bonitas mais tarde, através de estímulos, conversas com amigos ou da exploração consciente das minhas memórias esteticamente ainda não classificadas. Também consigo compreender a beleza que outros sentiram e torná-la numa sensação própria, se tiver uma imagem da beleza descrita.”

Zumthor, Peter; Pensar a arquitectura; tradução de Astrid Grabow; Editorial Gustavo Gili; 2005; p.60

Guardador de Rebanhos

•Junho 8, 2007 • Sem Comentários

Sou um guardador de rebanhos.

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos sensações.

Penso com os olhos e com os ouvidos

E com as mãos e os pés

E com o nariz e a boca.

 

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la

E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

 

Por isso quando num dia de calor

Me sinto triste de gozá-lo tanto,

E me deito ao comprido na erva,

E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,

Sei a verdade e sou feliz.

Caeiro, Alberto - Guardador de Rebanhos

 

E assim, Fernando Pessoa no seu heterónimo Alberto Caeiro escreve sobre o simples acto de sentir.

Diálogos

•Junho 8, 2007 • Sem Comentários

- Manda embora o frio.

- Sim.

- Manda embora a violência.

- Sim.

- Manda  embora a mentira.

- Sim.

- Manda embora o abismo.

- Sim.

- Deixa-me sentar.

- Senta-te.

- Deixa-te estar.

- Deixa-me ficar.

Ribeiro, Fernando; Diálogos de Vultos {poesia}; Quasi Edições; 2007; p.16

words @ msn

•Maio 20, 2007 • Sem Comentários

O Homem pode viver alienado de todas as artes, excepto da arquitectura, por ser o contentor onde vive.

escrito numa viagem de comboio:

•Maio 20, 2007 • 1 Comentário

A arquitectura é uma arte acessível a todos. Sendo a primeira das artes (abrigo) permanece num estatuto especial.

No filme “Equilibrum” (Kurt Wimmer), cuja referência directa é o livro “Fahrenheit 451” (Ray Bradburgy), reprimem-se os sentidos e os sentimentos e queima-se a arte. Quer no livro, quer no filme dramatiza-se tal acção com as descrições emocionantes dos amantes da arte que são, consequentemente, os “fora-da-lei”.

Mas igualmente emocionantes são as descrições dos ambientes urbanos e naturais. A cidade, a casa, a família na casa, a personagem na rua, a cidade de noite… a arte está em todo o lado. A arquitectura expressa-se pela visão, audição, tacto e olfacto!!! E esta arte não foi queimada…

E, numa associação de memórias, salta-se, rapidamente, para uma Paris-fedoranta em “O Perfume, História de um assassino” (Patrik Süskind), ou para a “Banda-Sonora-Original-das-Cidades” dos filmes de Jacques Tati, ou quando Amélie Poulain descreve Paris a uma cego, a um ritmo alucinante orquestrado por Yann Tiersen no filme “Amélie From Montmartre” de Jean-Pierre Jeunet.