Hipertrofia visual (pt.2) – arquitectura: sedução ou persuação?

•Junho 29, 2009 • Deixe um comentário

[Um excerto da dissertação de mestrado]

Nos actuais concursos de arquitectura, a importância da imagem revela-se nas propostas apresentadas e representadas em painéis com imagens de tal forma espectaculares, que, em diversas situações, permitem a organização de exposições. Durante o processo de concepção, o arquitecto tende a sobrevalorizar a imagem, pois entende que esta é o único veículo de comunicação entre o concorrente e o júri do concurso. Neil Leach expressa esta mesma visão: “O mundo ameaça assim ser cada vez mais compreendido em termos de imagens estéticas vazias de conteúdo.”1.

Identifica-se uma obsessão pela imagem. O arquitecto contemporâneo utiliza ferramentas de simulação tridimensional, mas expõe o projecto, somente, através de composições estáticas e a duas dimensões. Quando os pressupostos de sobrevalorização da imagem se transpõem para a obra em si, destaca-se um problema (ou uma dicotomia): «o homem estático vê a arquitectura» ou «o homem em movimento sente a arquitectura»? Sabendo que a maioria dos prazeres são vividos com os olhos fechados, como se sente uma arquitectura que foi concebida só para ser vista?

Peter Zumthor muda o sujeito da questão anterior e afirma: “Uma boa arquitectura deve hospedar o homem, deixá-lo presenciar e habitar, e não tentar persuadir.”2.

No entanto, Juhani Pallasmaa demonstra alguns dos efeitos colaterais da sobrevalorização da imagem: “Creo que muchos aspectos de la patología de la arquitectura corriente actual pueden entenderse mediante un análisis de la epistemología de los sentidos y una crítica a la tendencia ocularcentrista de nuestra sociedad en general, y de la arquitectura en particular. La inhumanidad de la arquitectura y la ciudad contemporáneas puede entenderse como consecuencia de una negligencia del cuerpo y de la mente, así como un desequilibrio de nuestro sistema sensorial. Por ejemplo, las crecientes experiencias de alienación, distanciamento y soledad en el mundo tecnológico actual pueden estar relacionadas con cierta patología de los sentidos. […] El dominio del ojo y la eliminación del resto de sentidos tiende a empujarnos hacia el distanciamiento, el aislamiento y la exterioridad. Sin duda, el arte del ojo ha producido edificios imponentes y dignos de reflexión, pero no ha facilitado el arraigo humano en el mundo.”3

1 – LEACH, Neil – A Anestética da Arquitectura. 1ª ed. Lisboa: Edições Antígona, 2005. p. 22

2 – ZUMTHOR, Peter – Pensar a arquitectura. 1ª ed. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 2005. p. 28

3 – PALLASMAA, Juhani – Los ojos de la piel. 1ª ed. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 2006. pp. 18, 19

Hipertrofia visual (pt.1) – a perspectiva linear

•Junho 18, 2009 • Deixe um comentário

[Um excerto da dissetação de mestrado]

A arquitectura produzida nos dias de hoje, na sua grande maioria, apresenta uma característica transversal a qualquer estilo, origem ou escola. Tal característica encontra-se na expressão “a importância da imagem na arquitectura”, e revela-se tanto no processo criativo como nos processos perceptivo e analítico. Ao longo dos tempos, os valores e princípios do arquitecto foram evoluindo e, consequentemente, gerando novas variáveis. A necessidade de comunicação entre o arquitecto e o construtor gerou uma sistematização: plantas, cortes e, posteriormente, alçados. O arquitecto, ao contrário do escultor, não produz a sua obra de arte e, por isso, codificou um sistema de representação para que o construtor entenda e construa o projecto representado. Na arte da música aconteceu algo semelhante com a codificação das partituras. Desta forma, um compositor escreve a sua obra de arte, e possibilita que um ou mais músicos reproduzam a peça musical.

Na evolução histórica da arquitectura, o sistema da representação e os vários tratados e manifestos artísticos são considerados marcos de grande importância. Mas o grande momento que alterou todo o panorama artístico foi a descoberta e codificação da perspectiva linear. A profunda pesquisa sobre o entendimento da visão humana culminou com essa descoberta, durante o Renascimento. Não só a arte bidimensional (pintura) se tornou mais real, como o modo de ver e criar arquitectura também mudou. No século XXI ainda se sentem os efeitos dessas mudanças. A expressão anónima «uma imagem vale mais que mil palavras» assumiu-se como o modus operandi do arquitecto contemporâneo.

“En el renacimiento se consideraba que los cinco sentidos formaban un sistema jerárquico, desde el sentido más elevado de la vista hasta el más bajo del tacto. El sistema renacentista de los sentidos estaba relacionado con la imagen del cuerpo cósmico; la visión guardaba correlación con el fuego y la luz, el oído con el aire, el olfato con el vapor, el gusto con el agua y el tacto con la tierra.

La intervención de la representación en perspectiva hizo del ojo el punto central del mundo perceptivo, así como del concepto del yo. La propia representación en perspectiva se convirtió en una forma simbólica que no sólo describe sino que también condiciona la percepción.

No cabe duda de que nuestra cultura tecnológica ha ordenado y separado los sentidos aún con más claridad. La vista y el oído son ahora los sentidos socialmente privilegiados, mientras que se considera a los otros tres como restos sensoriales arcaicos con una función meramente privada y, normalmente, son suprimidos por el código de la cultura. Sólo algunas sensaciones, como el disfrute olfativo de una comida o de la fragancia de las flores a la conciencia en nuestro código de cultura ocularcentrista y obsesivamente higiénico.”1

1 – PALLASMAA, Juhani – Los ojos de la piel. 1ª ed. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 2006. pp. 15, 16

O despertar dos sentidos urbanos

•Junho 18, 2009 • Deixe um comentário

[Um excerto da dissertação de mestrado]

O arquitecto Peter Zumthor, tanto nos seus projectos como nos seus textos, demonstra uma grande sensibilidade, tanto na análise do espaço arquitectónico, como no processo criativo: “Para projectar, para inventar arquitectura, temos que aprender a tratá-los conscientemente. Isto é trabalho de investigação, é trabalho de memória.

[…] Experimentar concretamente a arquitectura, isto é tocar, ver, ouvir, cheirar o seu corpo. Descobrir estas qualidades e ocupar-se conscientemente com elas […].”1

Mesmo numa arquitectura hiper-sensorial, o prazer da criação artística é a força que motiva um arquitecto a projectar: “Devo admitir que me daria muito prazer conseguir criar coisas que os outros amem.”2

1 – ZUMTHOR, Peter – Pensar a arquitectura. 1ª ed. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 2005. p. 54

2 – ZUMTHOR, Peter – Atmosferas. 1ª ed. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 2006. p. 67

Novidades

•Junho 1, 2009 • Deixe um comentário

Sei que este blog ficou parado durante algum tempo. Agora, após concluir o mestrado e o primeiro ano curricular do doutoramento, vou utilizar esta ferramenta para expôr os meus pensamentos e reflexões.

Até breve!

Homem versus Natureza (?)

•Abril 2, 2008 • 2 Comentários

A expressão “o homem e a natureza” é um pleonasmo, se a Natureza for entendida de forma integral. A Natureza não rejeitou os animais racionais. Estes, durante a sua evolução, tendem a distanciar-se dela, criando naturezas artificiais ou anti-naturezas (cidades). Como a arquitectura é uma expressão artística, independentemente da escala (pormenor, edifício, cidade, metrópole, país…) a arquitectura deve ser entendida como parte integrante da Natureza e não como a sua antítese.

Assim, a criação das naturezas artificiais, que, perante esta abordagem, visa o distanciamento à Natureza, apresenta um paradigma oposto. Como o Homem faz parte da Natureza, qualquer manifestação artística, inter-relacional, emocional, intuicional, faz parte da Natureza. Não abordando o tema através da filosofia ocidental (arte; processo criativo; estética) nem da psicologia (comportamentos; relações; emoções), o despertar para uma visão integral e integrante, induz a uma leitura mais sensorial da relação entre o Homem e a Arquitectura.

Tal visão encontra-se defendida na filosofia oriental denominada de Sámkhya [termo sânscrito]. Esta é classificada como a mais antiga filosofia teórico-especulativa. Os vestígios encontram-se associados à civilização Harappiana, localizada no Vale do Indo (3.000 a.C.). O livro que mais apresenta tal conclusão é o Atharva Vêda [título original em sânscrito] que descreve o quotidiano desta civilização. A subdivisão mais antiga, o Niríwshwarasámkhya [termo sânscrito], defende que tudo o que acontece tem como origens causas naturais, mesmo que estas não sejam inteligíveis.

Faça-se Sentido!

•Março 25, 2008 • 6 Comentários

Entendendo o Blog como ferramenta de trabalho para o mestrado que me encontro a desenvolver, deixo este post para receber os vossos comentários.

O tema em investigação é: Sentidos Urbanos. A imagem (visão) tem vindo a ganhar um grande protagonismo no processo criativo e construtivo da cidade. Assim, pretendo explorar os outros quatro sentidos. Quem nunca se sentiu atraído pelo som de uma queda de água (ou mesmo fonte) que não se encontrava abrangido pelo nosso campo visual?

Aguardo comentários, referências bibliográficas, experiências pessoais… Tudo o que sentirem útil esta investigação, que pretende aproximar a Arquitectura do Homem.

Para isso basta clicar em comentário ou, se preferirem, enviem-me por mail sentidos.urbanos[arroba]gmail.com.

Obrigado!

Filme de domingo

•Setembro 16, 2007 • 1 Comentário

Hoje vi pela primeira vez um filme de Aurélie du Boys. Um filme peculiar, pois a faixa áudio foi a primeira a ficar pronta, ou melhor, a primeira a ser editada. O filme conta ainda com uma edição em CD da banda sonora integral do filme, durante 90 minutos.

Não se trata de um manifesto, mas sim de um trabalho de Yann Tiersen. No seu último trabalho “On Tour” que representa a digressão de “Les Retrouvailles”, o compositor e multi-instrumentista edita uma edição especial (CD + DVD) onde o concerto é transformado em filme de autor. Imagens de vários concertos, backstage, devaneios, excertos de outras películas compõem o filme “Yann Tiersen On Tour”.

Não é novidade, mas já que estive de cama durante o fim-de-semana, decidi ver este DVD que adquiri há mais de 6 meses (no concerto na Casa das Artes de Famalicão).

Partilho então dois excertos do DVD de um dos meus compositores preferidos:

Yann Tiersen – Teaser DVD “On Tour”

Yann Tiersen – Le Banquet

what’s that noise?

•Agosto 31, 2007 • Deixe um comentário

O “Porto-comercial” amanheceu com uma nova banda sonora. Por volta das 10 da manhã, num dia normal, intensificam-se os barulhos dos motores dos carros, das cargas e descargas, das reacções às segundas filas de estacionamento, …

Hoje, esperando a normalidade e com todos os sentidos apurados (porque estava a terminar de ler o “Ensaio sobre a cegueira” de José Saramago), senti uma melodia que se realçava pela diferença e se sobrepunha às outras pela força.

Conjuntos de aviões em acrobacias aéreas anunciam o filme de amanhã… estamos a ver/ouvir/sentir o trailer! E em directo!

Partilho a imagem (não o som) captada da varanda de casa.

Red Bull Air Race

Meditar

•Junho 12, 2007 • 1 Comentário

Muitos livros, palestras, filmes e filosofias abordam este tema. Desta vez partilho as palavras de Peter Zumthor durante uma palestra realizada em 1998, sobre o tema “Venustas” e uma passagem do filme Dreams (Akira Kurosawa), quando uma personagem entra dentro de um quadro de Van Gogh.

“Um quadro de Rothko, campos de cor vibrantes, abstracção pura. A percepção gira somente em torno do ver, é para mim puramente visual, diz ela. Outras sensações como o cheiro ou o ruído, o táctil ou o tacto não desempenham nenhum papel. Tu entras no quadro que estás a ver. O processo tem a ver com concentração e meditação. E como uma meditação, não de consciência oca, mas sim plenamente consciente. É a concentração no quadro que te torna livre, diz ela. Atinges um outro nível de percepção.”

Zumthor, Peter; Pensar a arquitectura; tradução de Astrid Grabow; Editorial Gustavo Gili; 2005; pp.57 e 58

Akira Kurosawa; Dreams; 1990

Conversa com uma amiga

•Junho 12, 2007 • Deixe um comentário

Depois de uma conversa com uma doce amiga, encontrei este parágrafo num livro de Peter Zumthor que ilustra o tema da conversa. Dedico à minha doce amiga estas palavras.

“Provavelmente, a impressão surgiu primeiro, depois sobreveio a reflexão. E sei também que certas coisas apenas se tornam bonitas mais tarde, através de estímulos, conversas com amigos ou da exploração consciente das minhas memórias esteticamente ainda não classificadas. Também consigo compreender a beleza que outros sentiram e torná-la numa sensação própria, se tiver uma imagem da beleza descrita.”

Zumthor, Peter; Pensar a arquitectura; tradução de Astrid Grabow; Editorial Gustavo Gili; 2005; p.60